O verão de 2024 mudou o lugar do ar-condicionado dentro da casa brasileira. O que antes era item considerado supérfluo em boa parte das residências passou a ocupar quartos, salas, escritórios pequenos e até áreas comerciais que nunca haviam recorrido à climatização artificial.
As ondas de calor sucessivas, somadas à queda dos preços dos aparelhos do tipo split e à popularização dos modelos inverter, criaram o cenário para o maior salto de vendas já registrado pelo setor.
Os números confirmam o movimento. A produção nacional fechou 2024 em 5,9 milhões de unidades, alta de 38% em relação ao ano anterior, segundo a Associação Nacional dos Fabricantes de Produtos Eletroeletrônicos.
O Brasil consolidou a posição de segundo maior produtor mundial de ar-condicionado, atrás apenas da China. Já em 2025, os cinco primeiros meses registraram crescimento de 21% sobre o mesmo período do ano anterior, mesmo com a chegada do inverno.
O problema é que poucos brasileiros pensam no aparelho depois da instalação. A compra é tratada como evento; a manutenção, como inconveniente. E é justamente aí que mora um risco que médicos e órgãos sanitários vêm tentando colocar na conversa.
O ar que sai do aparelho não é o mesmo que entrou
Quando o ar-condicionado é ligado, ele puxa o ar do ambiente, faz esse ar passar por uma serpentina gelada onde a umidade condensa, e devolve o ar resfriado ao cômodo. No caminho, todo material particulado que estava em suspensão fica retido nos filtros e em outras partes internas.
Poeira fina, ácaros, pelos de animais, esporos de fungo e bactérias se acumulam ali. Com a umidade gerada pela própria condensação, esse acúmulo encontra ambiente ideal para se multiplicar.
A consequência é direta. O ar que volta para o cômodo passa a carregar resíduos biológicos que não vieram do exterior, mas foram produzidos dentro do próprio aparelho.
Em uma residência onde a limpeza nunca foi feita, o equipamento que deveria refrescar o ambiente vira fonte ativa de poluição do ar interno.
A médica residente em pneumologia do Hospital de Clínicas da Unicamp Maíra Zanovello descreveu o mecanismo em entrevista à instituição.
Em ambientes climatizados, o ar frio paralisa os cílios que revestem as paredes do sistema respiratório, encarregados de jogar para fora as impurezas que entram junto com o ar que respiramos.
É o momento em que fungos, mofo, bactérias, vírus e ácaros permanecem no organismo livres para provocar doenças respiratórias de natureza alérgica.
Rinite, asma, sinusite: a lista de quem mais sente
Quem já tem alguma condição respiratória crônica costuma perceber o problema antes dos outros. A rinite alérgica é o quadro mais relatado, com obstrução nasal, espirros em série, coriza e coceira nos olhos e na garganta.
Em seguida vêm os agravamentos de asma, com falta de ar e chiado, e crises de sinusite ligadas à exposição prolongada a fungos.
A relação entre asma e rinite é tão próxima que cerca de 80% dos pacientes que têm asma apresentam também rinite, e os principais fatores desencadeantes das crises são alérgenos inalantes como ácaros da poeira de casa, fungos que ficam no ar-condicionado, pelos de animais, baratas, bactérias e pólens.
Há ainda um quadro mais grave, raro mas registrado em surtos pontuais no Brasil e no mundo: a doença do legionário, pneumonia severa causada pela bactéria Legionella pneumophila, que pode se alojar em dutos e filtros de sistemas mal higienizados.
O risco é mais associado a edifícios comerciais com sistemas centrais de climatização do que a aparelhos residenciais, mas serve para dimensionar o que a falta de manutenção pode produzir.
Para quem mora em cidades como Apucarana, onde a transição entre estações é marcada e o uso do ar-condicionado costuma se intensificar nos meses de janeiro a março, o cuidado precisa entrar na rotina.
O norte do Paraná tem registrado verões mais quentes na última década, o que significa mais horas de operação dos aparelhos e mais acúmulo de sujidade em períodos curtos.
O que diz a legislação
Pouca gente sabe, mas existe lei federal específica sobre o tema. A Lei 13.589, de janeiro de 2018, tornou obrigatória a manutenção de sistemas de climatização em edifícios de uso público e coletivo, com a exigência de um Plano de Manutenção, Operação e Controle, conhecido pela sigla PMOC.
A norma se baseia em dois documentos anteriores que continuam em vigor: a Portaria 3.523 do Ministério da Saúde, de 1998, e a Resolução RE nº 9 da Anvisa, de 2003.
A Resolução RE nº 9 estabeleceu os padrões referenciais de qualidade do ar em ambientes climatizados de uso público ou coletivo, com o objetivo de zelar pela saúde pública, já que um sistema de ar-condicionado em más condições pode trazer riscos a quem frequenta o ambiente e também disseminar bactérias contagiosas como a Legionella pneumophila.
Para residências, a legislação não impõe a mesma obrigação. Mas o princípio sanitário é o mesmo: ar-condicionado sem manutenção é foco de contaminação.
A diferença é que, em casa, ninguém vai fiscalizar. A decisão de cuidar do aparelho fica inteiramente com o morador.
Frequência: a cada quanto tempo
Não existe número único, porque a frequência depende do uso e do ambiente. Em uma casa em que o aparelho fica ligado apenas algumas horas por dia, em região com pouca poeira e poucos moradores, a limpeza dos filtros uma vez por mês e a higienização profunda a cada seis meses costumam dar conta.
Em ambientes comerciais, com alta circulação de pessoas ou uso de 12 horas diárias, o intervalo cai para três meses.
A higienização profunda é diferente da limpeza de filtros. Os filtros podem ser retirados pelo próprio usuário, lavados com água e sabão neutro e recolocados depois de secos. Esse é um procedimento básico e mensal.
A higienização profunda envolve abrir o equipamento, lavar a serpentina, a turbina e a bandeja de condensado com produtos específicos, aplicar bactericida e fungicida adequados, verificar pressão do gás refrigerante e drenagem da água condensada. Esse trabalho exige técnico habilitado.
De acordo com uma empresa que limpa ar condicionado em SP, os principais sinais de que o aparelho precisa passar por higienização imediata são mau cheiro ao ligar, queda na capacidade de refrigeração, aumento do consumo de energia, água pingando da unidade interna e barulhos diferentes do habitual.
Esses indícios costumam aparecer juntos quando o intervalo entre limpezas passa de um ano.
A relação esquecida entre limpeza e conta de luz
Há um efeito secundário da higienização que pesa no bolso. Quando os filtros e a serpentina estão sujos, o fluxo de ar é prejudicado.
O aparelho precisa trabalhar mais tempo e em rotação mais alta para atingir a temperatura programada. O resultado é consumo elétrico maior, ciclos mais longos do compressor e desgaste prematuro das peças.
Em estudos do setor de eletroeletrônicos, a economia gerada por um aparelho bem higienizado pode chegar a 15% na conta de energia mensal, dependendo do estado anterior de sujeira.
Quando se considera que o ar-condicionado é o eletrodoméstico de maior consumo da casa nos meses de verão, essa diferença vira valor concreto na fatura.
Para o consumidor que acabou de comprar o aparelho, o cálculo é ainda mais relevante. O investimento na compra só faz sentido se o equipamento for mantido em condições adequadas durante toda a vida útil, que costuma ser de oito a doze anos para modelos residenciais.
Antes de comprar: cuidados que evitam dor de cabeça depois
A maior parte dos problemas que aparecem nos primeiros meses de uso do ar-condicionado vem de erros cometidos antes mesmo da instalação.
Dimensionamento inadequado, posicionamento da unidade evaporadora em local errado, ausência de ponto de dreno bem feito e instalação elétrica inadequada respondem pela maioria das reclamações registradas em assistências técnicas no primeiro ano.
Quem ainda vai instalar o aparelho deve prestar atenção a alguns pontos antes de chamar o técnico: cálculo correto da capacidade em BTUs para o tamanho do cômodo, definição do melhor local da parede para a unidade interna, verificação da fiação elétrica disponível, planejamento da saída da tubulação e dimensionamento do dreno.
Esses itens parecem detalhe técnico, mas determinam o desempenho do equipamento e a frequência com que ele vai precisar de manutenção. Um checklist para instalar ar condicionado bem feito reduz custos posteriores e amplia a vida útil do aparelho.
A instalação por profissional sem qualificação é o segundo grande problema. Aparelhos instalados por valor baixo, sem nota fiscal e sem garantia de serviço costumam apresentar vazamento de gás, ruídos anormais e perda de eficiência em poucas semanas.
O reparo, quando feito, sai mais caro do que teria saído uma instalação correta desde o início.
O ponto cego do consumidor
A grande dificuldade do setor de manutenção de ar-condicionado no Brasil não é técnica, é cultural. O consumidor médio ainda associa manutenção a aparelho com defeito.
Enquanto está funcionando, o equipamento é ignorado. A noção de manutenção preventiva, comum em carros, ainda não se transferiu para a climatização residencial.
O resultado aparece nos consultórios. Médicos otorrinos e pneumologistas relatam aumento sazonal de pacientes com queixas respiratórias que coincide com os meses de maior uso do ar-condicionado.
Em muitos casos, a investigação termina no aparelho de casa, do escritório ou do carro. A limpeza, feita logo após o diagnóstico, costuma resolver boa parte do quadro sem necessidade de medicação prolongada.
Para o morador de Apucarana e da região, a recomendação dos especialistas é clara: tratar o ar-condicionado como qualquer outro equipamento que afeta a saúde da família.
Comprar bem, instalar com profissional qualificado e manter limpeza regular não são gastos extras, são parte do custo total de quem decidiu trazer o aparelho para dentro de casa.
O verão que se aproxima vai exigir mais horas de uso. O momento de cuidar do equipamento é antes do calor, não depois das primeiras crises de espirro.

